Surpreendi-me quando entrei em meu quarto. Não, ainda não me visitaste. Mas é estranho sentir-te presente, uma vez que, em corpo, não estás.

É novo pensar que o espaço onde vivo não é mais só meu. E, ao passo que isso me intriga, também me cativa, me motiva e me remete a outras experiências, conhecidas ou não. Tudo isso senti ao adentrar no quarto, e surpreendi-me com isso.

O tempo, longo, fez acostumar-me a sentir cheiro de mim. Cheiro impessoal, insípido, que não consigo descrever – talvez até porque seja inexistente. Os cheiros alheios mexem comigo de um modo quase que visceral: são novos, e estranhos, e intrigantes, e cativantes. Nunca antes havia aspirado um odor arrepiante como quando entrei em meu quarto, por isso surpreendi-me. Não, ainda não me visitaste, mas ali tinha teu cheiro, cheiro da tua áurea.

Novo, foi como que sentir os pêlos efervescerem a partir da aspiração. Apressado, fechei a porta, com chave, na tentativa de prender-me e isolar-me naquela atmosfera de odor, calor e suor. Não, tu não estavas, mas eu te sentia.

Instintivo, passei meus dedos por sobre o rosto e a boca: isto lembrava-me teu toque – e arrepiava-me.

E sugava, olhos cerrados, teu cheiro por completo, cheiro de mato fresco das serras cariocas, cheiro de massas saborosas, cheiro de ar-condicionado, de estofamento de carro, de cremes e perfumes nova-iorquinos, cheiro de França, de Sampa, de Búzios, cheiro de mar, de pesca, de água e cinema, cheiro de abraço, de silêncios...cheiro de beijo. Cheiros que não conheço mas sei que existem, por ti.

Aspiração forte, a atmosfera não está mais presente. Toda ela está dentro de mim, agora. Por fora, só restam ecos, ecos dos odores esvaídos que agora me pertencem, não há mais volta. E, do teu cheiro, embriago-me e inspiro-me, através da distância que a mim traz-te pra perto: e arrepia-me

Escrito por André Marinho às 20h51
[ ] [ envie esta mensagem ]




Meu perfil

BRASIL, Sudeste, Homem, de 20 a 25 anos, Cinema e vídeo, Arte e cultura

Visitante número: